Wednesday, December 16, 2009

Para Patrick,

O que eu mais gosto no Patrick são as rugas dos seus olhos. Seis pra ser exata. Três de cada lado. Foi num dia de muito sol que comecei a contá-las.
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Era um domingo à tarde, eu acho. e nesse dia conversávamos num posto perto de casa, como nos acostumamos a fazer. conversávamos e olhavámos pra fente. daquele jeito mesmo de quem só está ao lado. não foi preciso aprender a ficar assim e nem lembro o que conversávamos. não tinha afetação, nem pressa, nada: só estávamos um ao lado do outro. Como ele disse outro dia, ou eu, ou alguém de quem a gente goste muito: estávamos um ao lado do outro "pelo tempo de estar"
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Uma hora, virei e olhei o desenho sem sombras daquelas rugas e pensei, "Patrick tá ficando velho". e ele ficou ainda mais bonito aos meus olhos. Eu já o tinha visto algumas vezes. Outras, nem quis vê-lo. e ainda que eu sempre soubesse, ainda não o tinha visto assim tão de perto, e ele era assim mesmo: mais velho. e a gente também estava mais velho e ele ainda é mais velho do que eu. Tem coisas que o tempo não muda.
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E foi nesse dia que comecei uma conta exata. Como a simetria de seis rugas divididas por dois igual a três, como toda soma é igual a nove, como dois e dois são cinco: meu amor, tudo certo. Patrick, tudo certo.
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esse texto tem uns meses e hoje é dia 16 de dezembro de 2009.

Friday, November 27, 2009




Sobre o ultimo show da Gallo Azhuu


hj, dia 27. 11, na ágora do Odilo tem outro.


Que medida de tempo, que qualidade do que se faz memória, tem o momento de quando se vê uma coisa bonita? Não sei ao certo, mas me lembro, que no último show da Gallo Azhuu (...) pensei que poderia estar perto de um centro estranho e forte de energia que pode mesmo ser a fonte de tudo que vibra, e que foi bem perto disso que se chamou pela primeira vez de quântica a física. Mas todo esforço em traduzir em números a vida não é mesmo pra mim que sempre fui péssima em matemática, e posso só dizer que desse momento, ele é bem perto do formato sem ângulos da noite em que se chega à algumas conclusões metafísicas sobre o tempo e o espaço ocupando a mesma dimensão, tudo suspenso enquanto o show acontecia, em um tempo louco em que era possível circular como espírito e estar.

Saturday, November 21, 2009

A paz está na guerra,
Todo homem deve trazer consigo sua espada,
Abrãao
e usá-la sempre que necessário o sacrifício:
são 10 animais sem chifre,
em nome do bem,
em nome do mal,
amém.




O nome do filme é Revolutionary road,


Kate Winslet de tubinho azul turquesa


em direção a uma piscina limpa, grande e vazia.


Um calor do cão, 3 da tarde (horário de verão),


e os dias se repetindo em uma janela azul de nuvem nenhuma.




Wednesday, August 12, 2009




" uma vez no barulho da guerra, eu vencendo, aí estremeci num relance claro de medo - medo só de mim, que eu mais não me reconhecia. Eu era alto, maior do que eu mesmo; e de mim mesmo eu rindo, gargalhadas dava. que eu de repente me perguntei, para não me responder: -'Você é o rei dos homens?...' Falei e ri. Rinchei feito um cavalão brabo. Desfechei. Ventava em todas as árvores. Mas meus olhos viam só o alto tremor da poeira" Grande Sertão: veredas, 1957.



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tem que nasça de olhos bem abertos,

quem brinca com o coração batendo bem forte,

tem quem não parece temer.

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A paz está na guerra.

O descanso é o descanso da batalha.

Uma aragem a caminho,

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Coragem mesmo se tem em qualquer lugar.






Para a Gallo Azuhh.



Wednesday, July 01, 2009


e talvez, em um desses dias de partida eu também possa entregar uma chave velada, em meio a um estranho aperto de mão. tua mão que nem imagina o que tem entre as minhas. te confio em meio a esse aperto, um segredo: hoje eu quero só um passeio.
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ontem Chico me mostrou um poema do Vinícius que ficou martelando na minha cabeça. ele tá aqui hoje. porque hoje é um desses dias em que nem chove e nem faz muito sol. desses dias em que a gente tem mesmo vontade de se perder no caminho. e que prazer estranho esse de se descobrir bem no meio de um outro caminho. era um poema bonito. nem parecia com aquelas coisas bonitas que o Vinícius escreve. parecia mais com uma história. era um poema bonito e eu não sei guardar segredo. Não lembro o nome do poema, porque o li enquanto folheava o livro e conversava com Chico, dizendo olha esse como é bonito. numa dessas tardes de boa e velha vizinhança.

Wednesday, June 10, 2009

BOI MORTO
(Opus 10. Manuel Bandeira)
Como em turvas águas de enchente,
Me sinto a meio submergido
Entre destroços do presente
Dividido, subdividido,
Onde rola, enorme, o boi morto
Boi morto, boi morto, boi morto.
Árvores da paisagem calma,
Convosco -altas, tão marginais! -
Fica a alma, a atônita alma,
Atônita para jamais.
Que o corpo, esse vai com o boi morto.
Boi morto, boi morto, boi morto.
Boi morto, boi descomedido,
Boi espantosamente, boi
Morto, sem forma ou sentido
Ou significado. O que foi
Ninguém sabe. Agora é boi morto,
Boi morto, boi morto, boi morto.
Talvez ainda tenha tempo de me arrumar pra partida. Talvez eu possa lavar os cabelos e simplesmente ir. Como se hoje fosse um daqueles dias em que não chove, mas que também não faz um sol muito forte. Sempre uso protetor solar. E hoje, não levo um guarda-chuva. Acho que não vai chover.

(Todas as manhãs, o aeroporto em frente me dá lições de partir).

Monday, June 08, 2009





I.


VII. Para dizer é preciso se estar longe o bastante. Por isso começo do zero.